“Foi a pandemia”: ela explica os números ruins do governo Bolsonaro?
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A pandemia pesou de verdade: a economia do mundo encolheu, os preços subiram em todo lugar e o auxílio emergencial segurou a pobreza em 2020. Mas ela não explica tudo: a fome e a economia fraca vinham de antes, e o governo atrasou vacinas, apostou na cloroquina e trocou quatro vezes de ministro da Saúde.
O que aconteceu12
- É verdade que a crise foi mundial. O FMI estimou que a economia do planeta encolheu 3,5% em 2020. No Brasil, o PIB caiu 3,3% naquele ano, pelo número revisado do IBGE. (O Globo, Agência Brasil)
- Também é verdade que os preços subiram no mundo todo. A inflação de 2019 a 2022 somou 26,93%, e especialistas ouvidos pelo g1 apontam a pandemia como principal causa, junto com o dólar alto, as commodities e a guerra na Ucrânia. Mesmo assim, em 2021 a OCDE previa para o Brasil a terceira maior inflação entre as principais economias. (g1, O Globo)
- O auxílio emergencial funcionou em 2020. O governo propôs R$ 200, a Câmara anunciou R$ 500, e Bolsonaro, após conversar com Paulo Guedes, aceitou R$ 600. Segundo o Banco Mundial, a extrema pobreza caiu de 5,4% da população em 2019 para 1,9% em 2020, a menor da série. (UOL, Poder360)
- O efeito durou pouco. Com a redução do auxílio, a pobreza teve alta recorde em 2021 e chegou a 62,5 milhões de pessoas (29,4% da população), o maior nível desde 2012, segundo o IBGE. (Gazeta do Povo)
- A economia já andava devagar antes do vírus. Em 2019, primeiro ano do governo, o PIB cresceu 1,2% e o desemprego ficou em 11,9% na média do ano. Também em 2019 o governo acabou com o ganho real do salário mínimo, que passou a ser corrigido só pela inflação. (Agência Brasil, El País Brasil)
- A fome também vinha subindo antes. A pesquisa do IBGE de 2017 e 2018 já contava 10,3 milhões de pessoas em insegurança alimentar grave, 3 milhões a mais que cinco anos antes. Em janeiro de 2019, por medida provisória, Bolsonaro tirou do Consea, o conselho de segurança alimentar, a função de propor a política contra a fome. (g1, BBC News Brasil)
- A fome passou de 19 milhões de pessoas em 2020 para 33,1 milhões entre o fim de 2021 e o início de 2022, segundo a Rede Penssan. O Brasil voltou ao Mapa da Fome da ONU em 2021. A ONU atribui a volta à mudança nas prioridades das políticas públicas e também à pandemia. (BBC News Brasil, Agência Senado, ONU Brasil (FAO))
- Até o fim de 2022, o Brasil registrou 692.743 mortes por covid, ou 3.294 por milhão de habitantes, segundo os dados oficiais reunidos pelo Our World in Data. A média do mundo foi de 838 por milhão. O Brasil ficou acima dos vizinhos Argentina (2.866), Colômbia (2.746) e México (2.576), perto de Estados Unidos (3.162) e Reino Unido (3.159), e abaixo do Peru (6.512). (Our World in Data)
- Na CPI da Covid, em junho de 2021, o epidemiologista Pedro Hallal, da UFPel, estimou que 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas se o Brasil tivesse ficado na média mundial. Pela análise do grupo dele, só o atraso na compra das vacinas da Pfizer e da CoronaVac resultou em 95,5 mil mortes. Senadores governistas contestaram o cálculo. (Agência Senado, g1)
- A Pfizer ofereceu vacinas em agosto de 2020, inclusive 1,5 milhão de doses para aquele ano, e o governo não respondeu. O contrato só saiu em março de 2021. Em outubro de 2020, um dia depois de o Ministério da Saúde anunciar 46 milhões de doses da CoronaVac, Bolsonaro escreveu: “Não compraremos a vacina da China”. A vacinação começou em 17 de janeiro de 2021, justamente com a CoronaVac trazida pelo Butantan. (g1, Agência Brasil)
- Pesquisadores do Observatório Covid-19 Brasil calcularam que mais 47 mil idosos poderiam ter sido salvos se a vacinação tivesse começado antes. Um estudo da UFMG estimou que vacinar 40 dias antes, com mais doses e junto com medidas de proteção, poderia ter evitado 400 mil mortes. (Agência Brasil)
- O Brasil teve quatro ministros da Saúde na pandemia: Mandetta, Teich, Pazuello e Queiroga. A saída dos dois primeiros é atribuída à resistência de Bolsonaro ao isolamento. Teich ficou 29 dias e saiu após divergir sobre a cloroquina. A CPI da Covid atribuiu a Bolsonaro crimes como charlatanismo e infração a medidas sanitárias. (BBC News Brasil, g1)
Situação hoje e o que eles dizem
Situação hoje: Balanço justo: a pandemia explica a queda da economia em 2020, boa parte da inflação e parte da alta da fome, e isso aconteceu no mundo todo. Ela não explica a economia fraca e a fome em alta de antes de 2020, o atraso nas vacinas, a aposta na cloroquina, a troca de ministros nem o fato de o Brasil ter tido mais mortes por habitante que a média mundial e que os vizinhos. A CPI pediu o indiciamento de Bolsonaro, mas até outubro de 2026 não há condenação pelos fatos da pandemia.
O que eles dizem: A versão mais forte do argumento: nenhum governo do mundo passou bem pela pandemia, e a crise econômica veio das medidas de isolamento de governadores e prefeitos. Em maio de 2022, Bolsonaro disse: “A inflação vem do ‘fica em casa, a economia a gente vê depois’, não é isso?”. Segundo a revista piauí, ele usou esse bordão em 51% das lives que fez de março de 2020 a setembro de 2022. Em outubro de 2021, afirmou que o Brasil foi um dos países que menos sofreram na economia, e Paulo Guedes disse que a alta de preços era uma questão global. Na CPI, o senador Eduardo Girão resumiu: “Erros nós tivemos no mundo inteiro”. Os defensores também lembram que o governo pagou o auxílio emergencial e que a extrema pobreza chegou ao menor nível da história em 2020.
Como usar na conversa
- Comece concordando: “A pandemia foi difícil para qualquer governo, isso é verdade”. Depois pergunte: “Então a comparação justa é com outros países na mesma pandemia, certo?”.
- Mostre o antes. Pergunte como estavam o emprego e a comida em 2019, antes do vírus. O PIB cresceu 1,2%, o desemprego estava em 11,9% e a fome já subia.
- Separe o que era inevitável do que foi escolha. O vírus não foi escolha. Deixar a Pfizer sem resposta, recusar a CoronaVac e defender a cloroquina foram.
- Reconheça o auxílio emergencial, e conte a história inteira: o governo propôs R$ 200, o Congresso puxou o valor para cima, e a pobreza bateu recorde em 2021, quando o auxílio diminuiu.
Cuidado para não exagerar
- Não negue que a pandemia pesou. A economia caiu e os preços subiram no mundo todo. Quem nega isso perde a conversa no primeiro minuto.
- Não use o número de mortes sem contexto. O Brasil é populoso, então compare por milhão de habitantes. Lembre que muitos países contaram menos mortes do que tiveram, e que Estados Unidos e Reino Unido ficaram perto do Brasil.
- As mortes evitáveis são estimativas. Diga sempre quem calculou: Pedro Hallal, o Observatório Covid-19 Brasil, a UFMG. Não diga que “Bolsonaro matou 400 mil”.
- Não chame Bolsonaro de genocida. A CPI tirou o genocídio do texto final, e ele não foi condenado pelos fatos da pandemia. Fale das escolhas, com data e fonte.
Para mostrar na conversa6
- Vídeo · TV SenadoPesquisadores dizem à CPI da Pandemia que 400 mil mortes poderiam ter sido evitadasPedro Hallal e Jurema Werneck explicando à CPI as estimativas de mortes evitáveis, e a reação dos senadores governistas.
- Vídeo · BBC News Brasil500 mil mortos por covid: 4 gráficos para comparar a tragédia do Brasil com a de outros paísesA comparação do Brasil com outros países por diferentes formas de cálculo, com as limitações de cada uma.
- Vídeo · AFP PortuguêsBolsonaro: vacina chinesa ‘não será comprada’Bolsonaro desautorizando a compra de 46 milhões de doses da CoronaVac, a vacina que depois abriu a vacinação no país.
- Vídeo · Poder360Bolsonaro: "'Fique em casa e a economia a gente vê depois' é para os fracos"Bolsonaro chamando a recomendação de ficar em casa de “conversinha mole”, em setembro de 2020.
- Vídeo · SBT NewsMais de 33 milhões de brasileiros passam fome, diz pesquisa | Repórter SBT (14/09/22)A reportagem de 2022 sobre os 33 milhões de brasileiros sem garantia do que comer.
- Notícia · BBC News BrasilNão é só efeito da pandemia: por que 19 milhões de brasileiros passam fomeComo a fome já vinha crescendo antes da covid e o papel do desmonte de políticas públicas, inclusive o fim do Consea.
Fontes25
- O Globo: FMI melhora previsão de crescimento do Brasil e do mundo em 2021, com vacina e estímulos
- Agência Brasil: IBGE revisa queda do PIB de 2020 para 3,3%
- g1: Inflação no governo Bolsonaro atinge o maior patamar para um mandato desde a primeira gestão de Dilma
- O Globo: Bolsonaro diz que economia do Brasil sofreu menos que resto do mundo, mas que inflação é culpa do 'fique em casa'
- UOL: Bolsonaro aumenta valor após fala de Maia e propõe R$ 600 a trabalhadores
- Poder360: Extrema pobreza do Brasil cai para a mínima histórica em 2020
- Gazeta do Povo: Pobreza teve aumento recorde em 2021 e chegou ao maior nível desde 2012, diz IBGE
- Agência Brasil: Taxa de desemprego cai no país e fecha 2019 em 11,9%
- El País Brasil: Bolsonaro propõe salário mínimo sem aumento real e veta concurso público em 2020
- g1: Fome no Brasil: em 5 anos, cresce em 3 milhões o nº de pessoas em situação de insegurança alimentar grave, diz IBGE
- g1: Bolsonaro altera lei e extingue atribuições do conselho de segurança alimentar
- BBC News Brasil: Não é só efeito da pandemia: por que 19 milhões de brasileiros passam fome
- Agência Senado: Retorno do Brasil ao Mapa da Fome da ONU preocupa senadores e estudiosos
- ONU Brasil (FAO): ARTIGO: Brasil voltou a sair do Mapa da Fome
- Our World in Data: Coronavirus (COVID-19) Deaths
- Agência Senado: Pesquisas apontam que 400 mil mortes poderiam ser evitadas; governistas questionam
- g1: Epidemiologista diz à CPI da Covid que cerca de 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas
- g1: Governo não aceitou propostas que previam 1,5 milhão de doses de vacina ainda em 2020, diz Pfizer
- g1: 'Não compraremos a vacina da China', diz Bolsonaro em rede social
- Agência Brasil: Há 5 anos, Brasil aplicava primeiras doses de vacina contra a covid-19
- BBC News Brasil: CPI da Covid: O que esperar dos depoimentos de Mandetta, Teich e Pazuello
- g1: Teich deixa o Ministério da Saúde antes de completar um mês no cargo e após divergir de Bolsonaro
- g1: CPI da Covid: Veja quais são os crimes atribuídos a cada um dos citados
- CNN Brasil: Lula e Bolsonaro trocam acusações sobre alta da inflação
- revista piauí: Bolsonaro usou a expressão “fica em casa, a economia a gente vê depois” em mais da metade das lives na pandemia